setembro 30, 2016

Covil

A semente escondida foi descoberta.
Os ataques ao cerne da fortaleza iniciam.

"Ergam a ponte. Levantem os canhões.
A guerra continua".

setembro 18, 2016

Paz

E tudo se conserta.

De um momento,
a vida traz surpresas.

Aproveite-as.
Depois corra
sem nada dizer.

Silêncio

Nunca fui muito fã do meu quarto. Lembro quando criança que passava mais tempo no quarto ao lado do que no meu próprio quarto. Meu quarto em si era dividido com um irmão e o silêncio só era quebrado pelo ventilador ou pelo ronco dele.

Mesmo quando estava frio, eu já ligava o ventilador. Aquele tec-tec-tec era quase uma canção de ninar. Tempo vai, tempo vem, eu comecei a ter meu próprio quarto.

Faculdade, os amigos vem depois dos rocks dormir aqui. Era eu acordar e já me agoniava pelo silêncio de todo mundo. Lembrava logo de minha mãe e já ia para cozinha bater panela ou preparar o café da manhã. Era preciso que todos estivessem de pé.

Os risos se misturavam à cara da ressaca e o silêncio já se escondia atrás de algum móvel. Eu estava seguro.

Viajar virou meu grande hobby. Passava mais tempo fora do Estado do que em casa. Era o som do avião decolando, das pessoas falando na rua, os sotaques se misturando na minha língua. A riqueza me pertencia nos pequenos detalhes.

O quarto ainda era meu, mas a cama de solteiro agora era dividida. As roupas chegavam e já caíam pelo chão do quarto. Os assuntos fluíam e a noite passava sem nem ao menos perceber.

Certo dia, o silêncio levantou de trás de um móvel e pôs o intruso e sua bagunça para fora. Corri para o ventilador em busca da proteção do tec-tec.

Mas era só o silêncio.
A cegueira não o deixa ver
que nossos sonhos são os mesmos

Vou desenhar.

Garrafas

Ouvi o barulho das garrafas ao passar pelo quebra-molas na viagem. No máximo uma trincada. Quebra-mola vai, quebra-mola vem. Conduzo o carro mais devagar afim de evitar danos.

Abro a mala. Só cacos.
O que fazer?
Mais rápido que minha amnésia alcoolica
esqueceu quem eu era
e quem um dia fui

Bilhete

Mexa suas pastas, revire suas bolsas
se achar este bilhete
me ligue.

retorno

Mesmo distante
ainda espero o seu retorno

(eu te amo e não sei mais o que fazer)

setembro 16, 2016

Noites de sexta

Os anos passaram e me lembro como era fácil uma sexta-feira a noite. A correria me levava pra casa, vassoura, produtos de limpeza à mão e em uma hora estava tudo limpo.

Um banho quente, um sono de 30 minutos e lá estava eu indo para o rock. Cervejas mais cervejas, algumas bocas. O bate-papo com amigos que nunca vi e que talvez nem os veria mais.

Uma amnésia e a sensação de que a noite foi melhor do que imaginava.

setembro 15, 2016

As estações

Da primavera não vieram flores
mesmo que seus espinhos tenham aparecido afiados

o cuco do relógio saiu para passear 180 vezes
e o mundo continuava a girar

passou o outono
e as folhas caíram secas

era o medo
a decepção
a guerra

estávamos numa disputa

tanto tempo e tudo que faltava
era um abraço
sincero, carinhoso
"tudo vai ficar bem"

setembro 10, 2016

Bilhete

Num bilhete escrito a mão
letra esparramada
quase sem caligrafia

vá e seja feliz

(não mais comigo)

setembro 09, 2016

Atropelamento

Um carro invadiu a calçada e veio me atropelando. Eu, que hoje estou há seis meses me recuperando, olho para minhas fotos e não consigo não me comparar.

É o meu lugar. É onde eu estaria.
Você me atropelou, sem tempo de correr.

setembro 06, 2016

No sotão

A crise vai passar, é o que anunciam todos os jornais. Governo anuncia novas políticas de austeridade. Há quanto tempo temos passado por isso?

Racionamos nossos encontros, os jantares já não existem, a poltrona do avião já não é a meu lado. Seria eu um vice decorativo? Fui colocado na reserva.

Falando em reserva, ontem voltei naquele restaurante. Duas taças de vinho barato estavam na mesa que reservei. Não fiquei pra jantar. Aproveitei o embalo e fui para um bar pé sujo ver o sol nascer de dentro da cerveja barata.

Num desses dias, apaguei num bar e acordei no sotão.