abril 30, 2016

madrugada fria

O frio da madrugada
os pés gelados embaixo das cobertas

sem outros para te aquecer.

todo o espaço
todo o vazio

abril 26, 2016

Verde-esperança

A bandeira com a digital
os cheiros das tintas da infância
os sonhos que adorava e nunca entendi

o telefonema dos amigos
o brilho no olhar
o sorriso espontâneo

o cheiro da pele
o cheiro do café diário

a fumaça mentolada

os lugares que passamos

coisas que sempre me lembram
que não sei desistir das pessoas

o verde da esperança ainda brilha
seja para qual caminho for
estarei lá.

abril 25, 2016

Livros

"É só isso, não tem mais jeito
Acabou, boa sorte
Não tem o que dizer
São só palavras
e o que eu sinto
não mudará"

Nunca acabo de ler meus livros
será que nossas histórias não tem fim?

Não sei.

Casa

A saudade bate, é claro, meu amor.

O furacão de Oz carregou nossa casa
e tudo está fora do lugar.

É tempo de nossa faxina,
enterrar nossos mortos
e seguir em frente.

Me ofereceram uma nova casa
imobiliada, limpa e de luxo

Mas casa mesmo
é só aquela com cheirinho do café amargo
a baguncinha jogada no canto

e a sensação que aqui é o meu lugar.

(vamos ficar bem. resolva suas crises)

abril 15, 2016

espelho

Na pedra que atravessou o espelho
será eu ter perdido o brilho?

lascas no chão e um pó
fino, cortante

seria alguém capaz de perguntar
espelho espelho meu

na limpeza dos cacos
num flash
o brilho dos olhos se apaga

abril 14, 2016

Vidro

Gestos que dizem mais do que palavras.
Difícil contornar. Difícil prever.

O velho clichê da garrafinha de vidro
Espero que não se vá.

abril 12, 2016

pauta-bomba

Difícil descrever o tempo
quando o tic tac dos relógios
já é inexistente

o tempo corre
grita

bomba atrás de bomba
as notícias chegam num estardalhaço

não as que eu quero

e se me peguntar como foi meu dia
já nem sei responder
se houve algum

abril 07, 2016

Impressão

As palavras foram secando
enquanto o papel continuava a ser escrito

secas, as palavras diziam
sem muito dizer

se estava tudo bem
estava

tudo parece tão confuso
mas as máquinas não podem parar

abril 05, 2016

Esbarrando no coelho

O lago refletia o céu estrelado.
do banco de madeira, apenas o silêncio dos grilos
e o barulho da palmada nos mosquitos

a fumaça dos cigarros era uma tentativa frustrada
de espantar os insetos e se livrar dos problemas
que o cinema não mostra

chuva de palavras.
notícia notícia notícia

o coelho da Alice corre e entra pelo planetário
e na onda de "estou atrasado"
deixa cair o relógio

vidro para um lado
ponteiro para outro
e os minutos vão se perdendo

não é possível mais achar as horas

o acidente quase fantasioso
desequilibrou a calma do lago

a preocupação em recuperar o relógio
e o tempo, achar o coelho e dar sentido a esta história
esbarrou nas guimbas acesas

feridas. dor.

do lago, não se vê mais as estrelas
uma nuvem tóxica de palavras tomou conta
da paz que os mosquitos nunca deixaram existir

o coelho segue seu rumo
sozinho, sem tempo
porque é tarde. é tarde.

Velório

O amigo que aparece no velório de um ente querido
para prestar condolências
e vender uma missa de sétimo dia.

Não passará.