outubro 03, 2014

Café, cigarro e o vício da caneta

Nunca recebi uma carta. Sempre passei horas debulhado sobre papel, caneta. Mãos manchadas de azul. No papel, sentimentos, pensamentos, conexões sem nexo e o mais puro eu.

Pensamentos proibidos que não estarão à vista do mundo. Apenas um, apenas um leria tudo aquilo. Chegar a minha essência não é privilégio de qualquer um.

E a cada verso sem resposta, dúvidas sobre o valor de tudo aquilo escrito e enviado. Como numa guerra, as respostas que não chegam trazem as dúvidas que não queríamos ter.

Faço um café amargo, fumo um cigarro e atravesso a madrugada em textos e mais textos. "De doce já basta a vida". Por que não levar isso como filosofia de vida? Me pergunto se tento adoçar a vida demais. Não sei dizer.

Certa vez, uma única resposta chega às minhas mãos. O café amargo caía em meus textos. Textos perdidos. Irrecuperáveis. O medo dali ficou. E se minha caneta, que tanto produzia, também destruísse os meus textos?

Parei de escrever por um tempo. Sem meus papéis e minha caneta, a vida parecia já não ter sentido. As bebidas perderam o gosto, a casa empoeirava, o banheiro era consumido pelo limo.

O quão amado você deve ser para merecer os sentimentos mais puros de alguém numa carta? A pergunta martelava em minha cabeça. Não seria eu digno de uma resposta?

Certa vez, conheci um garoto que me incentivou a fazer essa faxina na minha vida. Foram dias arrumando guarda-roupa, armários, tirando poeira, traças e esfregando os azulejos do banheiro. Numa dessas faxinas, achei lá meus papéis e minha caneta, que não demorou para querer se manifestar.

Registrava minhas viagens de ônibus, os passeios pela universidade, as experiências nos banquinhos da universidade, as conversas frente a praia. Minha mania de guardar coisas estava ali na minha caneta. Cada momento poderia virar um texto, uma lembrança.

A rotina café-cigarro-madrugada-texto voltou a acontecer. A guerra continuava. Minha caneta escrevia, o papel chegava a seu destino. É possível escrever cartas sem resposta? Pela primeira vez, passei a guardar textos em mim. Os que ainda iam para o papel eram guardados numa caixa esperando o dia que ganhariam a liberdade.

Certo dia, numa dessas escritas, o café novamente amargou o papel. Pendurei-o no varal, sequei-o e enviei. Ainda espero a carta que nunca chegou.

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