maio 26, 2009

Mata-baratas

Já era uma velha de pouco mais de 80 anos. Lúcida. Perdeu o marido há pouco tempo. Morava no segundo piso de um sobrado de três andares já antigo em meio aos novos prédios que o crescimento da cidade trouxe. No térreo, funcionava um mercado de frutas e verduras. Com todo esse espaço, a filha, também viúva, mudou-se para lá, afinal, a solidão não existe em dois. Em meio a tanto trabalho da filha, a dupla era ela e a janela...

Mal se via o relógio passar das quatro da manhã e lá estava a velha fazendo café. Escorava na janela da frente com a bebida no copo de geléia e ficava contemplando o vazio do nascer do dia. Era uma máquina aposentada.

Numa visita à antiga moradia, a filha encontrou um gato. Carinhoso, manso. Adotou o bichinho. A velha, como sempre, já foi contra a idéia de ter o gato ali. 'Vai sujar tudo, vai feder, vai passar doença, para quê esse bicho?'. Era o costume já consagrado de reclamar de tudo.

Não coloco a culpa nela. O mundo era a limitação da janela. O passar do tempo era observar as pessoas que, todos os dias, cheias de sacolas de compras, corriam puxando crianças em meio ao sol do verão. O vento soprava em direção ao leste...

Os primeiros dias do inquilino ali foram algo meio que para reconhecer território. O gato andava apenas por curtos espaços e, na ausência de perigo, deitava-se no chão e rolava na soneca. A velha, já armada pelo vácuo da janela, hora ou outra procurava o felino. Com o pé, chutava-o, cobrando o sono que lhe fora roubado.

E era só o bicho se aproximar tentando se enroscar nos pés da velha, ela saía. Ela tinha muitas coisas para fazer. Viver exige pose.

Descia as escadas e voltava para a janela até que, alguém, não importa quem, aparecesse por ali com a desculpa de uma visita-surpresa. Ouvia por alguns minutos as histórias repetidas sobre as pessoas que passavam na rua, usava o banheiro e já ia às compras novamente.

Lá para as três da tarde, fazia um novo café. Já ficava de olho na nora que sempre trazia o neto nesse horário. Da janela, observava o fluxo até avistar os dois... Vinham virando a esquina. Descia às escadas em direção ao mercado. Olhava as frutas da banca e começava a organizar para que, vinte segundos depois, eles chegassem e ela mostrasse toda sua hospitalidade convidando-os para comer rosquinha com café.

Enquanto a nora ia resolver as coisas no centro da cidade, o neto ficava ali vendo TV. ‘Tá gastando energia, o que é isso que você está vendo?, Mas você não viu isso ontem?, Nossa, mas que besteirada!, Onde tá seu pai?, Seu pai foi trabalhar?’. Tudo era respondido pelo próprio fluxo de consciência da velha. O garoto apenas ficava hipnotizado pelos desenhos da TV.

Lentamente, no cambalear preguiçoso de quem acaba de acordar, o bicho desceu as escadas e pulou no sofá. A televisão perdeu o sentido. O menino só tinha olhos para o gato. Abraçou, apertou, passou a mão na cabeça e o bicho esfregava-se nele. Os miados animavam o garoto.

‘MENINO! Larga isso! Você vai pegar uma doença! Ele vai te morder! MENINO! Larga!’. O gato, mesmo com os gritos da velha, continuava miando calmamente e o neto, como se nada ouvisse, continuava a acariciar o felino. A implicância com o bicho agora era motivo de honra.

Não esperou. No mesmo dia, em uma das visitas relâmpagos, já começou a espalhar as histórias sobre o gato, suas doenças, bicheiras e pulgas. Contou, numa expressão de pura verossimilhança, sobre o ataque que o bicho tentou fazer ao tão querido neto e todas as coisas que ele quebrou pela casa.

Tentou argumentar com a filha para que o gato fosse mandado embora dali. Não houve conversa. O gato fica! Tentou agradar o bicho, cheia de boas intenções. Até colocou arroz velho numa tigela para ele.

‘Coloquei comida praquele gato maldito e ele nem cheirou! Podia morrer de fome! (...) Mas é abusado! Só quer saber de comer ração! Mas come! Nossa senhora! Como come! Por isso que ta virando uma bola!’.

Naquela noite, o gato saiu para caçar. O resultado foi visto na manhã seguinte. Várias baratas mortas. Ele não as comia. Era um ritual. Fazia apenas pelo divertimento do caçar. Ele era um esportista!

As histórias sobre o gato aumentavam. 'Ele fede a casa toda. Nossa! Mas é um fedor insuportável! Mas ele enterra... E ele todo dia aparece com barata aqui! Que bicho sujo!' contava num tom pejorativo. Pouco depois, já falava com um leve sorriso no rosto 'Hoje eu acordei e tinha cinco baratas mortas aqui...’ Num tom íntimo, aproximava-se de quem ouvia suas histórias e contava confidencialmente ‘O bichinho sabe caçar...’. O sorriso fechava. ‘Só podia ser menos sujo!'.

O bicho, numa tentativa de aproximação ou numa consciência humana que não deveria ter, descia as escadas, chegava perto da velha. Com a cara mais assustadora que conseguia fazer, ela vinha correndo num estilo Godzilla e assustava o gato. Olhava ao redor. Sorria.

Quanto mais os dias passavam, mais mal falava do gato. Aliás, o gato era o assunto agora. A janela, antes foco principal dos únicos assuntos sempre repetidos, agora era mero complemento de conversa. O gato roubou a cena.

E por mais que a velha reclamasse, era estranho notar o sorriso pequeno, disfarçado, em meio aos pés de galinha, sempre que pensava nas baratas mortas. Era como ver, todos os dias, a morte de suas próprias baratas...

17 comentários:

YullyAngel. disse...

Você é o novo Machado de assis secularizado. ;D


Eu amei....

bjão rick!

Cidadão Utópico disse...

Li o texto todo e após fechei os olhos e vi várias linhas horizontais.. haahaa
ótima narrativa!

abraçO!

Caio Abreu disse...

O triunfo da morte sobre as baratas e não sobre ela rss

abçs

Jason Waider disse...

Ricardo...

Somos todos nós um pouco como a velha, ou não? será mesmo? Alguns de nós temos a chance de ser iluminados, fazemos parte daqueles que ainda não são velhos e não nasceram baratas... Mas o pior mesmo é quando antes de ser velho se comporta como tal... ou vive-se como baratas... e deixa o gato pra lá...
A gente sempre precisa falar de algo, mudar de foco muitas vezes é nosso alvo predileto.
Oooops, sou um novo seguidor>>> Jason. Abraços.

Fernanda Barata disse...

Muito bacana. Mas algumas baratas são legais, viu? ;/

Filippe. disse...

Gosto de ler você.

Mariana Anselmo disse...

Ah, colega... eu gosto msm! É que eu adoro chocar! haUHAUhauHA mentiriiinha! eu sou brega msm!!


"Esse blog é uma tentativa de reproduzir uma verdade que não é real. Nada aqui faz sentido."... ai essa descrição me lembra taaanto aula de comunicação social! Salve Martinuzzo, guardião do conhecimento do saber da comunicação da UFES! rs

beeijo e brigada pelo comentário no Dá Uma Nota!
=]

darsh. disse...

odeio baratas hem ricardo?
ODEIO.

mas seu texto eu adoro.

:*

Clara! disse...

Recorte de jornal O Globo do ano de 2230 encontrado por um aluno de jornalismo: "Ricardo Aiolfi, um famoso escritor capixaba, tem seus rascunhos descobertos e interpretados por intelectuais da área. Segundo Fulano de Tal de Assis, o autor emprega técnicas de mensagem subliminar em sua escrita e metáforas de difíceis interpretações provavelmente ligadas a sua dolorosa infância e difícil interação social..."

rsrsrsrs.... Texto perfect! Pena que nem todos conhecem a realidade como ela é!!! hehehehe

Clara e Marcelo :D

Mandy disse...

Adorei i texto, vc escreve suuper bem cara, na boa!

e vou procurar pra ler "Correios Feminino" da Clarice pra ler, faz tempo q estou querendo ler algo dela mesmo...

:D

Mariana Anselmo disse...

gente... esse layout nao era assim... fico confusa!


to no quarto período! e aproveite! o martinuzzo é o guardiao de toooooooooodo saber naquele departamento! e o ismael é o rei!


calooooooooooooooooooooouro!!

Marcel disse...

pensei q vc tivesse gostado daquele leiaute. rsrs

Thiara Pagani disse...

Obrigada,adorei seu blog também.
Tbm vou seguir!


-*

Filippe. disse...

tudo muito verde.

Amanda Goulart: Jornalismo em tempo real disse...

Gostei muito.
Super interessante.
Grande abraço.

Cristina Santos disse...

Que lindo Minnie! nao sabia q vc escrevia tao bem. Vou passar mais vezes por aqui. bjao

Clara! disse...

Não, não reli o texto das baratas rss Esse eu conheço de cor hehe

Mas to passando para te dar meu novo blog :)

http://desenhosdaclara.blogspot.com