março 02, 2009

Um dia comum

Dias desses, entrei num ônibus e me dirigi ao fundo em busca de um lugar vago. Não havia poltronas livres. Agarrei-me a uma barra e a lotação continuou a viagem.
Apenas meus problemas vinham à mente. Eu pensava nas mudanças que queria, que estavam prestes a vir. Eu estava perdido nos meus pensamentos. O mundo era pequeno demais para que eu o olhasse.
O ônibus freia bruscamente e eu saio de meu estado de transe. Olho para frente e vejo num conjunto de cadeiras um adulto e duas crianças. O homem não era pai ou parente delas. Ele apenas estava ali.
Eram dois meninos, um de aproximadamente 10 anos e o outro de uns 6, que estava adormecido, mesmo com todos os tremeliques do ônibus. O maior segurava o irmão com tanto empenho e todo cuidado, como se carregasse um vaso chinês.
Meus problemas sumiram. Meu coração palpitava. Observei as roupas em que estavam vestidos. Não tinham muitas posses, possivelmente nem tinham o que comer.
A criança menor parecia fraca, com fome, talvez desmaiada. Olhei ao redor. Ninguém os via. Tampouco eu os via.
O adulto se levantou e saiu do ônibus, como se nada estivesse ocorrendo. Eu era como ele, eu apenas estava ali.
O jovem de 10 anos arrumou o irmão no banco, agora livre, e o deitou no colo. Segurava seu rosto como uma mãe que segura um filho que acabou de se salvar de um acidente. O garoto adormecido nem ao menos abria o olho, enquanto era ajeitado no banco.
O que acontecia? O que houve? Por que ninguém vê isso? Por que ninguém faz nada? Eu era hipócrita. Eu sentia pena e nada fazia, como se eu apertasse o gatilho querendo que eles vivessem.
Meu trajeto se aproximava do fim. Meu coração batia dentro da minha cabeça. Em tempos tão difíceis, quem se entrega nessa proteção carinhosa a alguém? Eu não tinha pena. Era inveja. Eu era o mal daquele ônibus.
Eu não estava os vendo. Eu invejava. Como alguém que, com tão poucas posses, poderia ser mais amado do que eu? No fundo, tudo que eu via era meu ego se esvaindo.
Fim do meu trajeto. Uma faca cega retirava meu coração. Como se apertasse o gatilho, eu saltei do ônibus, sem nada fazer. Eu era o mal daquele ônibus. Eu era o mal desse mundo.

10 comentários:

Guilherme Rebêlo disse...

Eu nunca fui fã de textos escritos de tal forma; vai ver é porque eu nunca os consegui atingir.

Mas, parabéns, bom texto!

Maycon Souza disse...

Não fazer nada em relação a (quase) tudo faz parte de nós, seres humanos, ainda mais quado trata-se de situações como a apresentada.

Mas veja pelo lado bom vc disse que era o mal do mundo, então posso deduzir que já não o é mais.
E isso é um grande passo.

Ótimo texo hein!!

J. Sodré disse...

Muito legal seu texto. Me fez pensar em quantas vezes já agi desta forma: apenas estive em algum lugar.

psychicdamn disse...

Sua velocidade de processamento de texto me deixa atônito.

auto-retrato disse...

tem toda ambição de mudanças é cheia de alegrias,fato.
eu gostei do texto, eu algumas partes eu achei até seu jeito de escrever parecido com o meu, bem cheio de ação, eu gosto de textos assim. =)
abss

Clementinesays disse...

A pose mais valiosa que podemos ter é o cuidado e carinho sincero de alguém, esse garoto nem imagina mais ele tea sorte que munda gente morre buscando...

E quanto ao resto nada mais nada menos que egoísmo, o mal do mundo.


p.s: i love you ;*

luly_lewicki disse...

Acho que vc nem imagina que eu um dia iria ler o seu blog. Nós somos tão diferentes... Eu e vc, dois seres humanos completamente opostos. Mas nós dois nos sentimos mal pelas mais diversas coisas. As vezes por que não nos encaixamos. As vezes por que nos encaixamos. A instabilidade nos governa. Seus textos são de enorme potencial. Mas eu sinto falta de algo em vc... aquele brilho no olhar, aquela esperança.
Mas em algum lugar, no fundo de textos tristes e reflexivos eu consigo ver a faísca da sua alegria constante. Tudo vai ficar bem.

Eu te amo.
Lu Lewicki.

Luana Dalla disse...

alguem sempre vai te amar! FATO.

ludmilla. disse...

Parabéns pelo texto. A parte que mais me tocou foi: " como se eu apertasse o gatilho querendo que eles vivessem."
Excelente!
:)

Marcel disse...

Vc, ou seu eu-lírico, se sentiu tudo isso mesmo, já não é mais o mal do mundo.