fevereiro 25, 2009

Encontros e Desencontros

Ele entrava pisando levemente pela sala. Aquele ambiente tão conhecido, agora parecia inóspito. Era como se fosse a primeira vez que estivesse ali.
Retratos de várias épocas de sua vida povoavam a sala. As lembranças corriam de um lado para o outro, trazendo memórias que apenas os porta-retratos podiam guardar: estáticas, felizes, eternas.
Esse efeito parece nos fazer porta-retratos, mas não somos.
Andando pela sala, um espelho ao fundo. Quem é ele?
- Eu sou você!
- Se você sou eu, quem sou eu?
A pergunta maldita. A pergunta tão temida. É uma pergunta sem resposta. Respondê-la ou mesmo só pensar em sua resposta, já cria desconforto, confusão e caos. O caos se organiza. Fim daquela vida. Para tudo há um novo início. Não é mesmo?
Os encontros e desencontros de si com o próprio mostram que o porta-retrato é falso. Os buracos entre uma foto e outra permitem inúmeras reflexões e vivências. O espelho não é capaz de refletir tudo isso. Nele, as coisas são inversas.
O mundo dos espelhos é aquele que só ocorre com ações de alguém que está fora dele? Ou será que as ações do nosso mundo só ocorrem se algo vier do espelho? Quem é reflexo de quem? Afinal, a qual dos mundos pertenço?
Se quem está no espelho sou eu, eu não posso ser ‘eu’ próprio e, portanto, não sou quem eu pensava que era.
Os minutos passavam. Eu via os porta-retratos girarem pela sala. Olhar para mim e ser apenas observador parecia estranho. Aquela conversa muda, as trocas de olhares e os imensos monólogos duplamente ditos traziam a estranha impressão de estar deixando para trás quem ele acreditava que seria eternamente.
Os espelhos parecem refletir a realidade mostrando quem a gente é. São hipócritas. Mundo ilusório, frágil. Eles mostram que não somos únicos, sempre haverá outro de nós.
Os segundos passavam. Ele não tinha mais tempo a perder. As tarefas do dia-a-dia o aguardavam. A ida e vinda de olhares parecia transmutar o ser que olhava os espelhos.
Como se ele trocasse de lugar com o outro, pega as chaves, abre a porta e sai seu velho corpo com uma nova consciência.

10 comentários:

Bruna disse...

Amei....

Falando nesse negócio de retrato.... eu to me lembrando de uma vez que eu fiquei com medo de mim mesma na foto que tinha minha mãe e eu na formatura dela...

Aí tipo eu olhava p foto só que não parecia ser eu parecia ser outra pessoa naquela foto... Foi muito estranho.

=]

Aline Dias disse...

tente o retrato de dorian gray.

Maria disse...

Parabéns pelo texto expressivo, Ricardo...

Aline Dias disse...

confessa, vai. foi um comentário pertinente!

Marcel disse...

Gente, que menino complicado, meu Deus... É claro q é vc! É um reflexo, só isso! Vássuncê cumplica tudu...

XD rsrsr
Seu texto me lembrou de uma lenda japonesa, a "Casa dos Espelhos".

caixadevinis disse...

Miguel Marvilla despites you.

darsh. disse...

que filosófico, acho.


mas o título me lembrou a scarlett johansson cantando more than this.

Clementinesays disse...

'Como se ele trocasse de lugar com o outro, pega as chaves, abre a porta e sai seu velho corpo com uma nova consciência.'

Quero isso, sair do corpo e começar denovo.
Muito bom o texto.Expressivo como os seus olhos.

E auqele texto do meu blog se trata de um texto de alguém que está vindo pra mim, mais minha presa anda grande entende? rs

;

Aline Dias disse...

Mariana é uma série. o ombro é um personagem. um dos amores de Mariana. depois vc olha na barra do lado do blog que tem um link pra todas as postagens de Mariana.
aí vc pode ler do começo.

Maycon Souza disse...

Por vezes também pensei se era eu o cara do espelho ou o cara do espelho era eu...confuso não?!rsrs

Ótimo texto.