outubro 23, 2018

não tenho medo

Ouvia as batidas na porta
era o monstro
ele veio me pegar


as memórias de criança logo me pegam novamente
acho graça
antes fugia para debaixo da cama

os tempos mudaram
novamente ouço as batidas na porta

a cada "toc", uma nova vibração
diziam para eu não ter medo
não tem monstro
nada vai mudar

não abro a porta
as batidas continuam
cada vez mais fortes

corro para debaixo da cama
o monstro está vindo
"não tenho medo"

julho 25, 2018

Obsessão

O amor me bate quase como uma obsessão
quero saber
quero participar
quero controlar

não estou na sua mente
mas imagino o que se passa

a cada mínimo sinal
desvio o olhar
penso
reviro

e novamente estou lá

neste movimento quase que planejado
nada acontece

julho 24, 2018

Frango

Faço meu jantar. Com uma faca já desamolada de tanto contato com tábua de vidro, tento desossar um frango congelado de supermercado.

Ele vem almoçar. Tenho que acertar o corte, a receita, o tempero. Corro em outra panela e coloco para cozinhar as panelas, enquanto permaneço na briga com o frango.

A verdade é que quero agradá-lo, mas que ele não tem nada para me oferecer. Hoje não vai trazer sobremesa, não vem com aquele sorriso. Vem pela conversa, uma distração, um alívio.

Trocamos olhares. Eu sei que ele não tem nada para me adicionar. De relance, uma migalha da farofa cai na mesa. A conversa continua, um leve sorriso. Nada a me adicionar. Combinamos mil rolês que não vão acontecer.

E eu já nem sei o que estou fazendo aqui. Ele não tem nada a me adicionar.
Mas eu quero.

Corto o frango e finjo que nada aconteceu.

Rolê certo

E por mais que tudo caminhe para o lugar certo
o rolê errado é certo.

julho 18, 2018

Verde orgulho

Os telefones que não param de tocar
nenhum é da minha mãe
ela não tem espaço ali

reproduzir a vida
sem viver

daquelas cadeiras
se definem os medos,
as alegrias e a esperança de amanhã
a mordaça lacra o grito entalado na garganta

O muro de dinheiro
tapou a vista da comunidade
que não vê e não é vista

O barulho das panelas
não se ouve daqui da porta de casa
meus vizinhos conversam sentados nas cadeiras nas portas das casas
e os pássaros passam correndo para o ninho

Calaram a favela
com os cachos estampados na capa
e a voz se resume àquilo que não é dito

Tiros de metal cortam os céus
O sangue vermelho pinta as ruas
O único grito são os 10 segundos na TV

As luzes que passam por este prisma
não se transformam em arco-íris
só no verde que escolheram

Sedução

Estava eu limpando a casa. Quem é míope sabe bem como é difícil enxergar as famosas teias de aranha. Eu, particularmente, nunca entendi o meu medo desses bichos, na sua maioria, inofensivos.

Cheguei cedo da faculdade, ainda de lente, resolvi limpar a casa. Vassoura no teto, ponta do pé. Lá estou eu, mexendo com as famosas teias.

Num balançar envolvente e colante, uma a uma vai se prendendo a vassoura. Os pobres bichos, produtores da sujeira da minha casa, corriam em disparada pelas paredes. Não gosto, não gosto desses bichos.

Adrenalina de os ter ali, dentro de casa, e o poder de destruir tudo que construíram. Eu gostava disso. Destruir dá prazer.

Ao limpar uma das últimas teias da casa, uma aranha cai no meu ombro. Não percebi. Continuo meus afazeres enquanto ela anda pelo meu braço. No árduo trabalho de varrer, percebo a aranha subindo de volta pelo meu braço.

Parei. Por um segundo parei.

Ter o medo em você e não senti-lo.
Eu tinha um papagaio de oito pernas no meu braço.
Oito pernas.

Na verdade

trocamos olhares
nos abraçamos

ele não banca
ninguém banca
na verdade