julho 18, 2018

Verde orgulho

Os telefones que não param de tocar
nenhum é da minha mãe
ela não tem espaço ali

reproduzir a vida
sem viver

daquelas cadeiras
se definem os medos,
as alegrias e a esperança de amanhã
a mordaça lacra o grito entalado na garganta

O muro de dinheiro
tapou a vista da comunidade
que não vê e não é vista

O barulho das panelas
não se ouve daqui da porta de casa
meus vizinhos conversam sentados nas cadeiras nas portas das casas
e os pássaros passam correndo para o ninho

Calaram a favela
com os cachos estampados na capa
e a voz se resume àquilo que não é dito

Tiros de metal cortam os céus
O sangue vermelho pinta as ruas
O único grito são os 10 segundos na TV

As luzes que passam por este prisma
não se transformam em arco-íris
só no verde que escolheram

Sedução

Estava eu limpando a casa. Quem é míope sabe bem como é difícil enxergar as famosas teias de aranha. Eu, particularmente, nunca entendi o meu medo desses bichos, na sua maioria, inofensivos.

Cheguei cedo da faculdade, ainda de lente, resolvi limpar a casa. Vassoura no teto, ponta do pé. Lá estou eu, mexendo com as famosas teias.

Num balançar envolvente e colante, uma a uma vai se prendendo a vassoura. Os pobres bichos, produtores da sujeira da minha casa, corriam em disparada pelas paredes. Não gosto, não gosto desses bichos.

Adrenalina de os ter ali, dentro de casa, e o poder de destruir tudo que construíram. Eu gostava disso. Destruir dá prazer.

Ao limpar uma das últimas teias da casa, uma aranha cai no meu ombro. Não percebi. Continuo meus afazeres enquanto ela anda pelo meu braço. No árduo trabalho de varrer, percebo a aranha subindo de volta pelo meu braço.

Parei. Por um segundo parei.

Ter o medo em você e não senti-lo.
Eu tinha um papagaio de oito pernas no meu braço.
Oito pernas.

Na verdade

trocamos olhares
nos abraçamos

ele não banca
ninguém banca
na verdade

Biscoitos na praia

Não sabia se era a brisa do mar
ou o vento do ar condicionado

os biscoitos tão doces
em contraste com a areia da praia

nos enrolamos em palavras,
olhamos as estrelas
o sol partia sem deixar sinais

ainda não sei se foi doce

julho 06, 2018

Insônia

Chegava a noite, após o jantar e o incessante barulho da TV no jornal, todos iam dormir. Menos eu.

Deitei no sofá da sala e fiquei a apreciar o barulho do nada. A cidade estava morta.

Me tirem daqui.

julho 05, 2018

Casa

Envolvido no ventre
Que logo abandonei
E nunca me entendeu

Uma casa
Um esconderijo
Com o mal ao redor

Um grupo
Cheio de esquecimentos
Sorrisos vazios

Um amor
Com cheiro de segurança
E sensações de pânico

Um desejo
Que se materializa
somente no silêncio

O silêncio de um quarto
Com uma manta vermelha
E fria

A busca eterna de uma casa
Que nunca se encaixa

junho 15, 2018

Sequestro

Ouvi pelo rádio sobre seu sequestro.
Sem pistas, sem pedido de resgate.

Fico quieto, observo a multidão.
Lembro do seu sorriso.
Sorrio junto sem poder explicar o sorriso.

Mostro maturidade e profissionalismo
e digo que tudo vai dar certo
Logo logo ele estará de volta.

De novo o silêncio me consome.
Volta logo. Não aguento mais essas facadas.